Crítica: Assim como sua carreira, show de Jessie J em São Paulo foi um marasmo disfarçado de aula motivacional

Atração do Palco Sunset do Rock in Rio no próximo domingo, a britânica Jessie J desembarcou em São Paulo ontem, sexta-feira (27), para um show solo no Espaço das Américas. Sendo a sua primeira vez na capital paulista desde 2011, os fãs tiveram todos os hits que queriam, mas também tiveram muita enrolação trajada de aula de auto-ajuda.

Em pouco mais de 1h30 de show, que iniciou pontualmente às 21h30, a jurada do The Voice Kids não fez feio, musicalmente falando. Se o público estava preocupado que ela apresentasse um repertório pautado em “R.O.S.E”, seu último disco lançado em 2018 e que passou despercebido para a maioria, isto não ocorreu. Jessie foi esperta e dentre as canções da setlist, apenas 4 pertenciam ao CD do ano passado. Ainda que incoerente por não apresentar mais do seu material mais recente, a decisão foi um acerto. Os fãs estavam lá por “Price Tag”, “Dude” e demais hits do passado. Tirando uma dúzia de fiéis, a galera não se empolgou muito com “Real Deal”, faixa presente em seu fracassado álbum.

Simpática com o público, a chuva de nostalgia, no entanto, não foi o suficiente para Jessie segurar o show até o fim. Se tiveram os  sucessos que bombaram na MTV Brasil em seus últimos anos de exibição, em contrapartida teve também muito falatório que poderia ser facilmente tirado, com todo respeito, de um romance água com açúcar do Nicholas Sparks. É lindo um artista que, além de cantar, discursa em seu show. Afinal, os fãs se apaixonam pelo ídolo não apenas por conta de seu material de trabalho, mas também pela sua personalidade. Mas Jessie J perdeu a conta, dialogou demais e atropelou sem dó o ritmo da noite. Frases como “Pare de se comparar com os outros e se ame como você é. Não ouça o mundo ditando o que é bonito. Ame-se do jeito que você é!”, e demais frases do mesmo nível, foram repetidas a esmo. O público, que aplaudia no momento, demonstrava o desânimo causado pelos diálogos justamente nas canções animadas. “Domino” e “It’s My Party”, músicas que tinham tudo para causar alvoroço, foram mortificadas por infelizmente sucederem alguns desses papos motivacionais.

No meio do show, pela graça divina, aconteceu um ato fora do script. Uma adolescente de 17 anos jogou no palco uma regata, e Jessie, atenciosa como poucas vezes vi uma artista ser, não titubeou e pegou o vestuário. Fazendo questão de conversar com Érica, a garota que havia jogado a vestimenta, a cantora acabou descobrindo que ela era musicista, e que tocava violão. Isso foi o suficiente para Jessie a convidar para subir no palco e tocar uma canção que nem estava prevista no show,”Thunder”, single do disco “Alive” que completou 6 anos de lançamento nesta semana. Fofo, o o momento foi também um válvula de escape para um show que já demonstrava desgaste naquela altura.

A falta de animação não foi por conta do mal desempenho de Jessie no palco. Ela é sim muito carismática, vale-se dizer. E apesar de ter avisado no início da apresentação que estava doente, a sua enfermidade foi imperceptível durante a noite. A poderosa voz e todas as firulas e melismas que percorrem diversos memes da internet, estavam lá, corretíssimos. Na apresentação da canção “Brave”, rolou até a presença de seu namorado Channing Tatum. O pingue – pongue entre a euforia e a indiferença foram alternados a todo momento durante a noite.

A reta final do show, que tinha tudo para ser apoteótica, murchou novamente, mas não por conta de diálogos incessantes, mas sim porque Jessie teve a ousadia de mexer no arranjo do hit “Bang Bang”. Toda a força High School Musical que a versão original tem foi esmorecida para uma apática interpretação. Pecado feito, ao menos a esperteza não faltou na derradeira da noite,”Price Tag”. O hino dos hinos da senhorita J não sofreu altas modificações e estava lá, pulsante e gostoso, assim como era quando dominou as rádios há quase dez anos.

De revelação da música pop para participante de reality show na China, a carreira de Jessie J é irregular, e não por menos, o show em São Paulo refletiu esta bagunça difundida com muito estímulo, que ainda que não dê certo, sempre é tentado por ela e sua equipe. O talento provido de um poderoso gogó está mais ativo do que nunca, mas só uma grande voz não se faz uma carreira, e, neste caso, não fez o show devido.

 

Crédito foto: Flavio Florido / Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

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