Destaque, Literatura - Entrevista: Ryan Douglass fala sobre o sucesso de Jake Livingston, relembra viagem ao Brasil e diz que "editoras e estúdios sentem-se à vontade com a supremacia branca"
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Entrevista: Ryan Douglass fala sobre o sucesso de Jake Livingston, relembra viagem ao Brasil e diz que “editoras e estúdios sentem-se à vontade com a supremacia branca”

Lançado no ano passado nos Estados Unidos, “Jake Livingston vê gente morta” é um recente caso de uma longa lista de livros que se tornaram best-sellers graças ao TikTok. Livro de estreia do estadunidense Ryan Douglass, a história sobre o médium adolescente que além de ser perseguido por um fantasma vingativo é obrigado a lidar com o fato de ser o único negro em sua escola, tudo isso enquanto descobre sua orientação sexual, popularizou-se tanto no aplicativo de vídeos a ponto que a obra entrou na cobiçada lista do livros mais vendidos da “The New York Times” em agosto do ano passado.

E agora, o sucesso está entre nós. Lançado no mês passado pela Galera Record durante a Bienal do Livro de São Paulo, o livro chegou com uma particularidade em sua capa – ela brilha no escuro! Como forma de celebrar uma rara história paranormal que envolve questões de racismo e homofobia sendo lançada no Brasil, batemos um papo com o autor que, entre diversas confissões, revelou que adoraria ver a história se tornar um longa-metragem animado! Há spoilers na entrevista.

Antes de tudo, de onde veio a ideia de escrever uma história paranormal protagonizada por um rapaz negro e gay?

Eu queria escrever uma história de fantasmas e decidi contá-la sob a perspectiva de um homossexual negro porque era isso que me vinha naturalmente à cabeça.

Fiz primeiro essa pergunta por dois motivos. O primeiro, é que não é comum histórias de terror/horror serem protagonizadas por negros, ainda mais por gays negros. Houve receio de rejeição da história, ainda mais considerando que é seu primeiro livro?

Eu sabia que a ideia de um fantasma maléfico assombrar um rapaz era um gancho suficientemente interessante para despertar o interesse dos agentes da editora, porque existem outras histórias populares com personagens semelhantes. Só revelei que o Jake era gay quando chegou na fase de revisar o livro. Inicialmente ele teria uma queda por sua amiga. Eu temia que a sua sexualidade pudesse ser rejeitada se ele fosse homossexual.

No Brasil, temos diversos autores e estudiosos que propõem o debate de que negro não tem que falar só sobre raça e preconceito. E o seu livro, entre tantos temas, fala sobre racismo. Houve um cuidado de não cair no clichê?

Eu quis incluir a questão do racismo porque faz parte da vida, mas não queria que fosse o ponto central da história. O tema, infelizmente, consome a maior parte dos assuntos sobre negros na mídia, porque é o que os brancos acham de mais interessante sobre nós.

Com um protagonista negro e gay, e você sendo também negro e queer, o quanto há de comum na história de Jake com a sua? Há experiências pessoais suas no livro?

Temos algumas coisas em comum. As nossas personalidades são similares e nossas circunstâncias familiares são semelhantes. Nunca fui o único negro na minha escola, mas fui o único negro numa sala de aula, e é aí que algumas das experiências de Jake na escola foram tiradas.

Você também vê fantasmas, ou ao menos já teve experiências sobrenaturais como o seu protagonista?

Não consigo ver fantasmas, mas consigo sentir quando eles estão por perto.

Em outro tema abordado no livro, talvez um dos mais delicados, você traz  a questão do porte de armas e massacres em escolas, algo que, infelizmente, acontece com certa frequência nos Estados Unidos.  Como foi seu trabalho de pesquisa e escrita para tratar desse assunto sem cair em armadilhas que poderiam tirar o peso da narrativa?

Fiz muitas pesquisas sobre Columbine, considerando que foi um tiroteio que deu início a uma série de crimes similares ao longo dos anos 2000. A leitura sobre isso ajudou-me a compreender a personalidade dos adolescentes que cometem assassinatos em massa. A minha pesquisa foi principalmente sobre  nurture vs. nature, a psicologia cerebral deles e como se diferem das pessoas que não praticam homicídios.

(ALERTA DE SPOILER) Na história, o antagonista, após uma série de abusos por parte de colegas e da família, cometeu um massacre na escola, porém, nas redes sociais é possível ver muitos leitores envolvidos e até sendo solidários com o personagem. Como você enxerga essa relação do público com o personagem Sawyer?

Penso que Sawyer recebe simpatia porque o seu lado humano é retratado juntamente com o seu mau. Não sinto que a narrativa seja intrinsecamente positiva para ele. A história mostra que ele não se importa com as pessoas, é psicologicamente manipulador com sua família e gosta de torturar insetos. Mas também mostra que ele teve uma vida difícil. Quando as pessoas começam a analisar o quanto da sua violência foi causada por sua vida, é aí que a simpatia começa a fazer efeito.

Ainda sobre esse tema, em junho, a Suprema Corte dos EUA decidiu que os estadunidenses têm o direito fundamental de portar armas de fogo em público de forma não ostensiva. Qual foi sua reação sobre a decisão?

Eu quero  viver num mundo sem armas porque elas fazem mais mal do que bem. Penso que, no mínimo, devemos manter as armas de fogo longe da população.

Mudando de assunto, hoje temos uma longa lista de histórias LGBTQ que estão ganhando reconhecimento seja na literatura, cinema ou TV. Desde Heartstopper, Young Royals e até a futura adaptação de Vermelho, Branco e Azul. Porém, percebe-se que a maioria dessas histórias contam apenas com protagonistas brancos, magros e com boas condições financeiras. Como você enxerga Jake Livingston entre esses personagens?

A história de Jake é diferente desses personagens porque ele é negro e vive no sul dos Estados Unidos, e por isso penso que é a narrativa dele é um passo positivo, mas meu livro não vai mudar a tendência por si só. Aprecio todos os autores que fazem histórias estreladas por gays, trans, negros, indígenas, pessoas de cor, personagens gordos(as) pobres, deficientes.

Para você, porque há ainda essa falta de diversidade de etnias e corpos no protagonismo LGBTQIA+ que vem fazendo sucesso?

As editoras e estúdios aprovam histórias que sentem-se à vontade com a supremacia branca. Vemos claramente falta de diversidade em livros e filmes. Os livros afetam os filmes porque a maioria dos filmes eram livros. Penso que se fizermos a supremacia branca virar um alvo na cultura ocidental em geral, veremos simultaneamente mais diversidade na representação.

Enquanto lia, tive a impressão de que várias cenas do livro dariam ótimas sequências visuais. Você imagina Jake Livingston ganhando vida no cinema, ou até mesmo em uma série no streaming?

Espero de todo o coração que a história seja adaptada para as telas. Seria um sonho virar realidade caso Jake se torne um filme de animação.

E a sua trajetória na literatura, há previsão de lançamento de um novo livro ou outro projeto?

Estou atualmente trabalhando no meu próximo projeto, mas ainda não posso falar sobre. Estou também perto de escrever contos para duas antologias de horror que serão publicadas no próximo ano.

E o Brasil, você já esteve no País?

Visitei o Rio de Janeiro e Salvador em 2016. Lembro que senti uma sensação de pertencimento entre as pessoas, enquanto nos EUA muitas vezes me sinto um cidadão de segunda classe. As praias eram lindas e eu amei a arquitetura. Eu me senti em casa, exceto pela barreira do idioma, pois não falo português.

E você tem amigos brasileiros?

Não tenho amigos brasileiros, mas gostaria de ter alguns.

Para finalizarmos, poderia mandar um recado para seus leitores brasileiros? Ficamos no aguardo da sua presença por aqui!

Agradeço todo o apoio que tenho recebido do Brasil para o meu livro. Significa muito para mim e mal posso esperar para visitá-los novamente.

Qual a sua reação?

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